(Foto: Cali / @calistx.pic)
A precariedade surge como uma condição material antes mesmo de ser incorporada como estética.
Ela se manifesta na ausência de equipamento, no custo do transporte, no uso de instrumentos de terceiros e em municípios com escassas oportunidades para produções que desafiam os circuitos convencionais.
A linguagem vem depois, quando essas limitações deixam marcas na obra e passam a dizer algo sobre quem criou aquilo. O risco está em chamar de escolha o que nasceu como necessidade.
Foi por esse caminho que a conversa com o Marimbondo começou a fazer sentido dentro desta reportagem.

O projeto aparece como uma espécie de laboratório aberto, misturando música, arte visual, literatura e experimentação sonora.
A palavra ‘banda’ talvez resolva pouco, porque o Marimbondo parece funcionar mais como um aglomerado de ideias do que como um grupo fechado em um formato tradicional.
Ao vivo, o Marimbondo é formado por Henrique Moreira nos vocais e na guitarra, Leandro Santhiago no baixo e nos vocais, e Vitor Mugnol na bateria.
“O Marimbondo é um caderno de rascunhos público. É o registro de uma estética em formação.”
Henrique, integrante do Marimbondo
Sob essa lógica, o rascunho deixa de ser uma fase transitória para se consolidar como linguagem. Aquilo que os circuitos tradicionais poliriam, corrigiram ou ocultariam sob camadas de produção é incorporado à obra como traço de identidade. Não é exatamente um fetiche pelo erro, mas o reconhecimento de que a ausência de recursos financeiros e estruturais impede que o acabamento impecável seja a regra.
“Com um microfone fuleiro e uma guitarra emprestada, eu jamais faria algo como o Chico Buarque ou o Prince. Vejo nisso uma oportunidade de fazer algo novo e original.”
Nesta comparação de Henrique, fica claro que o Marimbondo não tenta fingir que a falta de estrutura coloca todo mundo em igualdade de condições. A saída possível é aceitar a limitação como parte do timbre e tentar fazer dela um caminho próprio.
No interior, essa dinâmica acontece com frequência. A banda não tem a casa ideal, então toca onde dá. Não tem equipamento suficiente, então divide com outra. Não tem designer, então alguém da própria roda faz a arte. Quando a estrutura formal inexiste, a rede se sustenta na tentativa constante de inventar caminhos onde a logística oficial não alcança.
Com base em Bauru, o Marimbondo esbarra na barreira geográfica para circular por polos maiores. Sem o suporte de coletivos formais ou uma rede sólida de networking, o projeto sobrevive na base do improviso, mantendo o fluxo de criação mesmo quando a logística não oferece oportunidades.
“O próprio ato de estarmos fazendo já é a coisa virando. É dar o seu jeito com o que tem e tentar criar espaços com isso.”
É isso que aproxima o Marimbondo dos outros personagens desta reportagem. Ester criava rotas porque os contratantes não chamavam. Orsi e Carol criavam o palco porque a banda precisava tocar. Márcio ampliava o festival porque a cena precisava aparecer em outra escala. O Marimbondo cria rascunho porque o acabamento, muitas vezes, custa mais do que a realidade permite.

A diferença está no tipo de resposta. O Marimbondo não tenta esconder a precariedade sob uma aparência profissional. Em vez disso, a incorpora, mas sem tratá-la como virtude automática.
“A produção caseira raramente é uma escolha estética; vem da necessidade. Mas o rascunho vira a própria obra final quando o lápis e o caderno são seus únicos instrumentos.”
Henrique, integrante do Marimbondo
Essa observação é crucial para evitar uma armadilha recorrente no debate sobre a produção autônoma: a tendência de romantizar a carência. Nesse sentido, o ruído da captação é lido como visceralidade, a precariedade técnica do palco é traduzida como entrega e a falta de design gráfico vira sinônimo de pureza estética.
O próprio Henrique aponta para esse incômodo quando fala da valorização da arte.
“Falta um país que valorize a arte. É muito mais fácil ver prefeituras bancando artistas grandes do que os pequenos que estão ali do lado.”
Nesse cenário, fazer música vira também insistir contra uma lógica de invisibilidade.

A pista como política
Do outro lado do capítulo, o Barato.mp3 desloca essa discussão para a pista.
O coletivo de música eletrônica de Bauru nasceu de uma pergunta sobre pertencimento. Alguns DJs queriam tocar o que acreditavam, mas não encontravam espaços onde seus estilos coubessem sem pressão comercial por hits de redes sociais. A resposta foi criar uma plataforma própria.
“O Barato.mp3 surgiu para fomentar um ambiente de lazer e autoexpressão feito por e para pessoas periféricas. Isso inclui poder dançar feio sem medo de ser julgado.”

O coletivo usa a expressão ‘Música Popular Eletrônica Brasileira’ para nomear sua identidade.
“A música feita pela periferia hoje é eletrônica. O termo vem do fato de ser a música produzida e consumida pela população que representamos.”
A formulação desloca a música eletrônica de um imaginário elitizado. Em muitos contextos, a eletrônica ainda é associada a clubes superfaturados ou estética estrangeira. O Barato.mp3 lembra que a periferia brasileira também produz e consome música eletrônica todos os dias, do funk às mutações de pista que atravessam house, garage, drum ’n’ bass, techno e outros fluxos.
A curadoria do coletivo passa por essa mistura. São dez membros, com DJs, fotógrafas, designers e pessoas responsáveis pelo administrativo e financeiro. As festas são pensadas coletivamente, a partir de temas e atmosferas definidos em reunião.
A linguagem é experimental, quase codificada, mas a política de acesso aparece de forma objetiva. São disponibilizadas listas trans e preta gratuitas e lote solidário, da mesma forma que a estética da festa não se separa da forma como ela se organiza.
“A pista de dança é um espaço de expressão livre, nada mais justo do que garantir acesso a quem deve estar nela através de listas inclusivas.”
Coletivo Barato.mp3
A lista gratuita para pessoas trans e pretas é uma tentativa de aliviar desigualdades que também aparecem na noite. A música eletrônica, em sua essência, foi criada por populações marginalizadas, logo, o coletivo busca garantir acesso dessas pessoas à pista como uma forma de justiça e cidadania.

Quando o lazer vira problema
A precariedade, para o Barato.mp3, também passa pela cidade. Bauru tem uma logística menos custosa que São Paulo, mas a dificuldade está nos espaços.
Casas noturnas estabelecidas operam com alvarás e investimento, enquanto produtores independentes enfrentam locações caras, estrutura limitada e fiscalização que pode cair com mais peso sobre festas menores ou periféricas.
É nesse ponto que entram, em camadas, a lei de festas clandestinas, a proibição dos eventos open bar e a chamada ‘Lei das Adegas’.
Bauru já tinha, desde 2017, uma lei que proíbe festas clandestinas abertas ao público em imóveis urbanos ou rurais quando realizadas sem obediência às normas legais, comerciais, tributárias e de fiscalização. O texto prevê exigências como alvará da Prefeitura, AVCB, laudos técnicos e outros documentos para autorização de eventos.

Em 2020, outra norma passou a mirar as chamadas festas open bar. A Lei nº 7.341 proibiu, no município, eventos que oferecem bebidas alcoólicas à vontade mediante pagamento de ingresso único ou valores simbólicos abaixo do mercado. A legislação prevê exceções para eventos com alimentação compatível, encontros fechados ao público geral e ações beneficentes, mas estabelece multa e restrição temporária para organizadores que descumprirem a regra.
Em 2026, a Câmara Municipal também aprovou um projeto para regulamentar o funcionamento de adegas, disk-cerveja e estabelecimentos similares. A discussão incluiu divergências sobre fiscalização, liberdade econômica e uso de leis já existentes para lidar com problemas como som alto.
Depois, com a sanção da Lei nº 8.017, a regulamentação passou a restringir consumo de bebida alcoólica dentro e no entorno das adegas, vetar a execução de música no local, limitar horários de atendimento presencial e prever penalidades progressivas.

O Barato.mp3 lê esse cenário por outra chave.
“O lazer não-rico e não-branco é considerado clandestino. A lei de festas clandestinas e a ‘Lei das Adegas’ impactam diretamente no lazer periférico.”
Essa fala não nega que existam problemas reais em torno de segurança, consumo de álcool, exploração comercial irregular ou presença de menores em festas sem estrutura.
A questão é que quando a resposta do poder público se concentra apenas em repressão e fiscalização, certos tipos de lazer passam a ser tratados como ameaça antes de serem reconhecidos como expressão cultural.

O Barato.mp3 tenta trabalhar no meio dessa tensão. O coletivo fala em excelência dentro dos próprios recursos, mas reconhece as limitações técnicas. Muitos começaram mixando no mouse, com equipamentos alugados ou de baixa qualidade. A técnica exige treino, e qualquer imprevisto em evento faz a equipe ter que se adaptar rápido.
“Trabalhamos de forma independente, mas com o máximo de excelência que nossos recursos permitem.”
Criar com o que existe
Marimbondo e Barato.mp3 lidam com a mesma instabilidade por caminhos diferentes. Em comum, há uma recusa de esperar a estrutura perfeita. A ‘estética da precariedade’ está exatamente na tensão de criar com o que existe sem fingir que isso basta.
O capítulo anterior mostrou o festival como cena em escala. Aqui, o foco desce para zonas menos confortáveis, onde a arte aparece antes da estrutura e, muitas vezes, apesar dela.
O rascunho, a pista e o barulho não são sinais de uma cena menor, mas formas de ocupar a cidade quando os espaços formais não bastam.
Depois que o som acaba, resta outra disputa: quem transforma essas noites em memória?
Capítulo 6: A memória
No próximo capítulo, Ray, Ilegas, Borges, Entre Palcos e Revista Repeteco aparecem como parte dessa rede que tenta impedir que a cena desapareça depois que o som acaba


