(Foto: @joao_arquivo / Reprodução)
Uma cena também desaparece quando ninguém conta.
Foi esse problema que começou a aparecer enquanto a reportagem avançava. A estrada mostrava o custo da circulação, o palco mostrava a dificuldade de criar espaço, a ascensão mostrava o atrito entre identidade e mercado, os festivais ampliavam a cena e a precariedade revelava o que acontece quando a estrutura falha.
Porém, havia uma camada atravessando todas as outras: alguém precisava transformar essas experiências em registro.

Ray Sanchez é uma dessas pessoas. Criadora e curadora do CENA, perfil dedicado à cobertura da música independente brasileira, ela não chegou ao jornalismo musical por uma ideia pronta de veículo ou mercado.
Designer e fotógrafa, moradora de Barueri, na Grande São Paulo, Ray conta que o projeto nasceu em 2025, em um momento pessoal difícil, como tentativa de criar um lugar onde pudesse se expressar. Antes disso, ela se via sobretudo como ouvinte, alguém inserida na música pela frequência aos shows e pelas amizades que esse circuito produz.
“A música, com o tempo, sempre me trouxe muitas amizades, sempre me trouxe vivências e experiências diferentes. Quando criei o CENA, falar só sobre música não me interessava muito. Eu queria que as pessoas sentissem o que eu sinto quando escuto, quando vou a um lugar.”

“A gente diz que é mais do que som, é a própria vivência da cena. Porque você está inserido ali, você não está só ouvindo, você contribui também de alguma forma.”
Ray Sanchez, criadora do perfil CENA
Ou seja, o projeto não tenta apenas dizer que uma música saiu, que um show aconteceu ou que uma banda merece atenção.
O jornalismo cultural brasileiro sempre conviveu com essa tensão entre mediação, crítica e participação. Parte da pesquisa acadêmica sobre o tema aponta que a cobertura cultural não se limita a informar sobre produtos artísticos, mas participa da construção de valor, circulação e repertório público.
Em estudos recentes sobre crítica e webreview, a internet aparece como espaço que reorganiza a relação entre produção cultural e recepção, deslocando parte do comentário crítico para ambientes digitais mais fragmentados.
No caso da música independente, essa fragmentação é quase o ambiente natural. A informação chega por stories, reposts, newsletters e mensagens diretas. O problema é que essa abundância não significa organização. Ray percebe isso quando tenta cobrir para além da capital.
“Quando a gente fala de um cenário além de São Paulo, as informações começam a ficar mais restritas. Fica cada vez mais difícil, principalmente quando se fala do Norte e do Nordeste.”
No interior paulista, a dificuldade assume outra forma. As cidades estão mais próximas do centro econômico do estado, mas isso não significa acesso de fato. Ray mora em Barueri, uma região que não é interior, mas que já impõe deslocamento constante para quem quer acompanhar shows na capital.
Ela reconhece nessa experiência uma parte do problema vivido por quem está mais longe. “Tanto para as bandas irem até lá tocar, quanto para as pessoas saírem de lá para ver as bandas na capital, é difícil. Existe pouca oferta.” A cena, então, depende de uma busca manual.
“É literalmente uma caça de informações. A gente ainda não tem um lugar que contenha tudo, um lugar unificado, acessível. A gente fica à mercê da informação e do algoritmo entregar essa informação.”
Ray Sanchez, criadora do perfil CENA
Mapear também é reconhecer
Alexandre Bazzan conhece esse impasse por outro caminho. Jornalista, editor da homepage do G1 e criador do Mapa da Música Autoral, ele se colocou em uma função de mapeamento que muitos veículos grandes deixaram de cumprir.
O projeto nasceu em São Paulo e depois se expandiu para outros lugares, como Rio, Aracaju e Goiânia, quase sempre puxado por pessoas das próprias cenas locais que queriam fazer algo parecido.
“O crédito seja dado, as pesquisas foram bem protagonizadas pelas pessoas de cada cidade, porque são elas que conhecem as casas de show e as bandas.”
Essa perspectiva é essencial, pois admite as fronteiras da mediação. É impossível realizar o mapeamento preciso de um cenário à distância sem o suporte de quem vivencia o cotidiano. Para além da visibilidade, organizar essas informações em um registro unificado é uma maneira de atestar que a produção local possui densidade e merece ser reconhecida como um movimento.
Bazzan se surpreendeu com a repercussão do mapa em São Paulo.
“Senti que as pessoas estavam carentes disso. São Paulo é muito grande, quem está aqui há um tempo já não se surpreende tanto com o que acontece, mas essa repercussão me surpreendeu mesmo assim.”

Se isso acontece na maior cidade do país, o problema se amplia no interior. A própria noção de ‘garimpo’, tão presente nesta reportagem, aparece na fala de Bazzan como algo que os grandes meios abandonaram.
“Aquele garimpo de tentar achar um artista novo, nos grandes meios de comunicação, morreu. Pode enterrar.”
Veículos consolidados seguem cobrindo música, mas muitas vezes a cobertura se concentra no artista que já tem nome e no lançamento com assessoria forte.
“Tem artista que lançou um álbum inteiro e estão falando 20 vezes de uma música de uma artista que todo mundo já conhece. O artista menor está ficando de lado.”
O jornalismo musical convive, desde sempre, com filtros e critérios. A diferença é que, em um ambiente de excesso de lançamentos e redução de equipes, o risco de repetir o conhecido fica maior.
“Se eu fosse um jovem jornalista entrando num grande jornal hoje, eu ia tentar ir a um show todo dia para conhecer. Estamos num momento de volume muito grande de artistas interessantes. Falta um pouco de curiosidade e um pouco de recurso.”
Alexandre Bazzan, criador do Mapa da Música Autoral
Quando falamos de curiosidade e recurso, a ordem importa. Sem curiosidade, a cobertura repete o óbvio; sem recurso, até o jornalista curioso trabalha no limite. É nesse espaço que iniciativas independentes tentam operar, muitas vezes sem dinheiro, sem estrutura e sem garantia de continuidade.
Ray também fala dessa precariedade. O CENA cresceu a ponto de reunir mais de vinte colaboradores voluntários, mas ainda lida com a dificuldade de receber, organizar e publicar informação em um fluxo que não para. A mídia independente vira, então, uma tentativa de organizar o excesso sem reproduzir completamente as exclusões do mercado.
Só existe cena se tem memória
Ilegas, editor e fundador do Desconhecido Juvenal, leva essa discussão para um lugar mais profundo. O coletivo jornalístico voluntário surgiu em janeiro de 2023 depois que ele foi a um show punk em Santo André e contou ao pai como tinha sido.
O pai perguntou se alguém havia escrito sobre aquilo. Havia fotógrafos, mas ninguém tinha registrado em texto. Uma semana depois, Ilegas foi a outro show e escreveu a primeira matéria.

Embora o começo aparente casualidade, ele expõe o tanto que a cena transborda em estética, corpo e público, enquanto o movimento ainda carece da solidez da memória escrita.
“Além de um registro histórico, o que a gente faz é um registro das identidades que compõem a cena. Só existe cena se tem memória.”
Ilegas, criador do perfil Desconhecido Juvenal
Para Ilegas, o Desconhecido Juvenal registra identidades, o que diz muito também sobre a origem do nome do projeto. “O nome Desconhecido Juvenal vem de uma história: meu pai estava na UTI e ao lado dele havia um velho que gritava seu nome — Juvenal — e a enfermeira dizia que sem documento aquilo não significava nada.”
“Nós somos os desconhecidos. Mas na cena, quando você se sente pertencente a ela, você encontra sua identidade.”
Ilegas, criador do perfil Desconhecido Juvenal
Em uma cena independente, muitas trajetórias passam sem entrar em arquivo institucional, sem matéria de jornal, sem cobertura de TV, sem crítica publicada ou sem fotografia profissional. Se ninguém registra, a existência pública do trabalho dessas pessoas fica frágil.
A memória precisa de matéria
João Victor Borges, fotógrafo da cena musical alternativa do interior paulista, foi um dos rostos que reconheci durante a LMC Tour em Campinas. Enquanto os shows aconteciam, ele circulava pelo Tetriz com a câmera, acompanhando a movimentação dos artistas e do público. Estava ali como parte da engrenagem que faria aquela noite continuar existindo depois do fim dos shows.

Ele começou a fotografar de forma espontânea. Ia a eventos menores, levava a câmera para quase todos os lugares e, quando passou a frequentar shows de amigos na capital, já estava familiarizado com o ambiente. Hoje, mesmo reconhecendo o cansaço do trabalho, vê a fotografia como uma forma de ampliar a percepção sobre aquilo que acontece no palco.
“Gosto de transformar qualquer apresentação, menor que seja, em um espetáculo pra quem vê só pelas minhas fotos.”
João Victor Borges, fotógrafo da LMC Tour
Na curadoria do olhar, o registro visual tem o poder de reconfigurar a percepção de uma experiência. Uma apresentação de menor porte, quando capturada com precisão, destaca a estética e o profissionalismo, tornando-se um objeto de desejo que impulsiona agendas futuras, abre portas em novas casas e captura a curiosidade de quem ainda não conhece o trabalho.

Borges percebe a diferença entre fotografar no interior e na capital, especialmente no público.
“A galera sempre é bem diferente da capital. Acho que o pessoal sempre é mais caloroso por ser mais carente de ter algum evento rolando, então aproveitam sempre bem mais.”
Essa carência já apareceu em outros capítulos. O público do interior, quando encontra um evento que faz sentido, parece segurar aquilo com mais intensidade porque sabe que talvez não exista outro igual na semana seguinte.

Borges também toca em uma questão de trabalho. Ele diz ser contra fazer qualquer trampo de graça ou sem certeza de pagamento, e cobra que a produção audiovisual seja levada mais a sério.
“O fotógrafo é tão artista quanto quem está no palco com o microfone.”
João Victor Borges, fotógrafo da LMC Tour
O Entre Palcos, projeto criado por Nina Vedovello e Nicole Devide, entra nessa mesma camada de registro. As duas trabalham com estrutura compacta, cartões de memórias, lentes e somente duas câmeras para cobrir um único show.
“Buscamos capturar a energia dos músicos e do público, os detalhes que ninguém nota e os momentos especiais que fazem cada show ser único.”
Um dos momentos marcantes para o Entre Palcos foi justamente o Na Garagem, festival discutido no segundo capítulo. Nina e Nicole fizeram a cobertura completa em foto e vídeo do evento.

Naquela noite, enquanto Orsi e Carol tentavam dar forma à primeira edição do festival, havia também alguém criando a memória daquela estreia. Sem essa camada de registro, a existência do Na Garagem estaria confinada à finitude das paredes do Lola Bar. É a imagem que permite ao evento impactar o agora, consolidando-se em material de divulgação para o que ainda virá.
Quem escolhe o que aparece
Ray, Ilegas, Borges e Entre Palcos trabalham em linguagens diferentes, mas todos respondem à mesma fragilidade. O show passa rápido, e o feed mais rápido ainda. Logo, a memória precisa ser construída antes que o algoritmo empurre tudo para baixo.
A cena autoral do interior paulista existe, mas muitas vezes existe em pedaços. O trabalho de quem registra é justamente tentar aproximar esses pedaços. Ray fala disso quando critica o ‘centrão do Sudeste’ e a repetição de pautas.
“Alguns portais e veículos ficam fixos no mais do mesmo, não saem desse nicho.”
O Desconhecido Juvenal tenta ocupar esse lugar com uma postura assumidamente crítica. Ilegas fala em ‘mainstream em miniatura’ para descrever certas concentrações de poder dentro da própria cena independente. A crítica é incômoda porque lembra que o underground também produz hierarquias, interesses e filtros.
“O que falta é um ecossistema mais diverso: mais eventos, mais casas que recebam esse público, mais gravadoras e mais canais de comunicação. Porque sem opções, a visibilidade nacional vai vir, mas a que preço?”
Ilegas, criador do perfil Desconhecido Juvenal
Toda mediação cria visibilidade, mas também cria limite. Quem registra escolhe o que aparece, quem aparece, como aparece e o que fica de fora. Um perfil independente pode abrir espaço para artistas invisíveis, ao mesmo tempo em que passa a organizar novos centros de atenção.
Nesse cenário, a mídia independente não se apresenta como uma salvação da cena, mas como uma peça fundamental da engrenagem. O CENA articula-se através de uma rede de voluntariado, o Desconhecido Juvenal encontra fôlego no vigor do esforço coletivo e Bazzan admite as fronteiras de impacto de sua newsletter.
“Honestamente, eu não sou um bom exemplo do que deveria ser esse papel de intermediário. Estou fazendo o que dá. Tenho uma limitação de qualidade do conteúdo e uma limitação de alcance”, diz Bazzan.
O trabalho de fazer durar
Ainda assim, sem essas iniciativas, tudo ficaria mais frágil.
O registro não ocupa o lugar do movimento, mas evita que a trajetória de quem produz seja reduzida a um boato passageiro. Esse é o ponto central da discussão sobre o jornalismo cultural fora da capital. A função vai além de resenhar álbuns ou divulgar apresentações, trata-se de estabelecer a base necessária para que a cena conquiste o direito de ser reconhecida enquanto tal.
Ilegas escolhe o jornalismo por acreditar nesse propósito.
“O jornalismo é uma linguagem atemporal. Por ter essa pretensão de neutralidade, ela pode ser lida por qualquer pessoa em qualquer tempo. A escolha pelo jornalismo é por isso.”
Ilegas, criador do perfil Desconhecido Juvenal
A vitalidade da música autoral no interior paulista prescinde de qualquer descoberta externa para existir, sua realidade já se impõe. No entanto, é a memória que define a permanência dessa trajetória. Sem essa base, o movimento torna-se vulnerável ao esquecimento. Enquanto o algoritmo prioriza o efêmero, os veículos de massa operam em um descompasso que ignora a densidade local.
No meio desse gargalo, a mídia independente tenta segurar alguns vestígios.
Capítulo 7: O interior vive
No próximo capítulo, a reportagem volta ao ponto de partida: o interior não está em silêncio, só falta escutar com mais atenção


