(Foto: Arthur Caires / Arquivo pessoal)
Um festival dá escala ao que já estava acontecendo nos cantos.
Antes dele, a cena já vinha acontecendo em proporções menores. Bares que abrem espaço quando dá, produtores testando formatos, artistas tentando circular e um público que aprende, aos poucos, onde encontrar esses encontros. O festival junta esses movimentos dispersos em uma imagem maior e, por algumas horas, permite que a cidade enxergue aquilo que, no resto do ano, aparece de forma dispersa.
Foi essa sensação que o Lobofest produziu em Sorocaba. Chegar à Arena Lucky Friends em 2025 era entrar em um rolê que tinha uma proposta clara. Não havia aquela lógica ansiosa dos grandes eventos, em que o público corre de um palco a outro com medo de perder alguma coisa.

O espaço funcionava de outro jeito. O público se espalhava pela grama no fim da tarde, enquanto brechós, expositores da região e a praça de alimentação ocupavam os caminhos do festival. Os palcos eram grandes o bastante para fazer a música independente parecer maior, mas ainda próximos do chão de onde ela vinha. O slogan ‘O Interior Vive’ nunca havia feito tanto sentido.
A escala de Sorocaba
O Lobofest nasceu da Lobotomia, produtora independente criada em Sorocaba em 2015. Antes de virar festival, a Lobotomia já fazia eventos menores, ações em praças e programações em espaços como o Mofo, coworking e estúdio ligado à trajetória de Márcio Bertasso, um dos principais organizadores.
“O Lobofest surgiu sem pretensão, mas logo entendemos que para ter independência, precisávamos furar a bolha e crescer o público.”
Márcio Bertasso, idealizador do Lobofest
Com o tempo, a produtora foi incorporando uma linguagem audiovisual forte e se aproximando de uma função quase de selo, mapeando artistas, produzindo encontros e ajudando a organizar uma parte da cena alternativa da cidade.

É nessa observação que o capítulo se baseia. Depois da estrada, do palco e da ascensão de uma banda, o festival é a mudança de escala, funcionando como um megafone. Amplifica o que já estava acontecendo, organiza o público em torno de uma experiência maior e tenta provar que uma cidade do interior pode sustentar um evento com grandes ambições.
A primeira edição aconteceu em 2022, ainda como aprendizado de estrutura, patrocínio e escala. Em 2024, o Lobofest anunciou uma programação com nomes como FBC, Jovem Dionisio, Clarice Falcão, Duquesa, Boogarins, Rodrigo Alarcon, Lou Garcia, DJ Ramemes e Cidade Dormitório, entre outros.
Em 2025, o salto ficou mais visível. A terceira edição aconteceu em 2 de agosto, na Arena Lucky Friends, em Sorocaba, com Marina Sena, Djonga, Yago Oproprio, Terno Rei, Vanguart, Benziê, Gabrelú, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Pelados, Yá Rosa, Ana Paia e DJ Brandini. O festival também incluiu a Feira Selvagem, uma praça de alimentação com comércios locais, flash tattoo e feira de discos.
O tamanho do lineup dizia muito. Marina Sena e Djonga puxavam o festival para uma escala nacional, enquanto ao lado deles, artistas ligados à cena local e regional mantinham o vínculo com Sorocaba.
Esse equilíbrio é essencial. Quando um festival cresce, corre o risco de transformar a cena local em decoração. No Lobofest havia uma tentativa clara de colocar a produção da cidade dentro da narrativa do evento, e não apenas como uma abertura protocolar.
A conta do fomento
“Em 2024 e 2025, com o auxílio de leis de incentivo como o ProAC, conseguimos expandir para dois palcos, trazer artistas de maior relevância e investir em tecnologia. O crescimento foi notório: saímos de 1.000 pessoas na primeira edição para um alcance de quase 9.000 pessoas em 2025, somando o festival e as atividades na cidade.”
Márcio Bertasso, idealizador do Lobofest
O ProAC, citado por Márcio, é o Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Na modalidade de editais, ele financia artistas, coletivos, associações e organizações culturais para desenvolver projetos no estado.
A Lei Paulo Gustavo também entrou nesse vocabulário recente do setor cultural. Criada como ação emergencial depois da pandemia, ela executou em São Paulo cerca de R$ 748,4 milhões, quase 96% dos recursos recebidos pelo estado, segundo balanço divulgado pelo Governo Federal em 2025.

Esses dados ajudam a dimensionar o debate, mas não resolvem o dilema de quem produz: o edital permite crescer, ao mesmo tempo em que cria dependência, porém, sem fomento, o evento precisa enfrentar uma conta muito mais dura. “Um festival só passa a ter independência financeira real se chegar na casa de 8 a 10 mil ingressos vendidos”, completa Márcio.
“A maior dificuldade não é o público — Sorocaba tem público. O desafio é conseguir grana sem elitizar”, diz Márcio.
Essa observação altera a percepção de uma crítica recorrente. No circuito autoral, o discurso de que falta público costuma esconder a complexa equação financeira para sustentar grandes estruturas sem que o valor do ingresso acabe por tornar o encontro inacessível.

Além disso, Márcio não pensa no projeto com um caráter empresarial. “Não temos uma visão do Lobofest como um negócio. Vamos no flow de fazer o que queremos, do jeito que queremos. É assim há 10 anos.”
Quando o festival vira plataforma
Em 2026, sem a mesma escala de investimento via edital informada na apuração, o nome Lobofest continuou circulando por Sorocaba em outro formato.
O Lobofest na Cidade surge como uma extensão urbana do festival principal, em que ao invés de concentrar tudo em uma única edição na Arena, a Lobotomia espalha shows por diferentes espaços da cidade, aproximando artistas em destaque da música nacional com a cena local.
Antes, essa programação funcionava como aquecimento para o festival. Em 2026, passou a se estender ao longo do ano. Em maio, a iniciativa levou Ebony pela primeira vez a Sorocaba, com a turnê KM2 Deluxe, em uma noite que também contou com a MC sorocabana Jess no Recreativo Central.
Mesmo sem uma edição grande nos mesmos moldes de 2024 e 2025, o festival não desaparece. A marca passou a funcionar como uma plataforma de circulação, sinal da consolidação de um evento que começa a sustentar outras experiências ao longo do ano.
A cidade como parte da experiência
A ideia de território ajuda a ler esse movimento. Lucas Manassi Panitz, pesquisador da geografia da música, trata esse campo como uma forma de compreender as relações entre espaço e cultura a partir das práticas musicais. Em um artigo de balanço sobre a área no Brasil, ele aponta que a geografia tem contribuído para analisar a sociedade brasileira e sua música pela perspectiva da espacialidade.
No Lobofest, essa relação aparecia na prática. A música não ficava restrita ao palco, mas mudava a circulação da cidade, levava público para outros espaços, movimentava comércio local e transformava Sorocaba em uma parte ativa daquela experiência.
O público não estava ali só para ver Marina Sena ou Djonga. Estava também para circular pela feira, encontrar conhecidos e descobrir artistas menores. O festival criava uma economia temporária e uma comunidade provisória.

Foi durante o show de Marina Sena que essa sensação ficou mais clara para mim. O álbum Coisas Naturais já tinha força no estúdio, mas ao vivo ganhava outra camada. A multidão cantava como se cada pessoa tivesse uma relação particular com aquelas faixas.
Quando ela cantou “dar um giro, ver a cidade comigo”, em Mágico, a frase parecia se encaixar no espírito do evento. O Lobofest, de algum modo, fazia exatamente isso, convidava o público a ver Sorocaba de outro jeito.
Ao sintetizar o impacto dessa trajetória na formação de público, Márcio destaca o peso da experiência: “O festival tem uma importância simbólica gigantesca para a construção de público na cidade.” Essa percepção reforça como o evento opera para que o município se enxergue como um legítimo território cultural.
O Beco como conexão
O Festival Beco, em Salto, oferece outro recorte dessa discussão.
Luca Schutz, um dos organizadores, conta que o festival nasceu a partir de uma cena hip hop pulsante na cidade desde 2016. O evento busca integrar atividades culturais à realidade local e criar um ponto de conexão para artistas e interessados em arte urbana.
O espaço escolhido para essa primeira edição também ajuda a entender o momento cultural de Salto. O Beco aconteceu no Karu, no centro da cidade, um espaço recente que se apresenta como lugar de música, cinema, comida e arte, nascido da transformação de um galpão em um ponto de encontro cultural.

Em uma cidade onde Luca sente falta de saraus, batalhas e ocasiões permanentes de encontro, um lugar novo como o Karu funciona como uma infraestrutura possível para testar cenas, públicos e linguagens que ainda procuram onde acontecer.
“O Beco foi uma forma de criar uma situação onde as pessoas pudessem se conectar através da cultura hip hop.”
A fala desloca o festival para outra escala. No Lobofest, o evento aparece como consolidação de uma cena alternativa com ambição regional. No Beco, surge como ferramenta de conexão social e formação cultural.
“Basta um incentivo pequeno para que uma pessoa abra uma porta e comece a trilhar seu próprio caminho no mundo artístico”
Luca Schutz, idealizador do Festival Beco
Dentro da lógica do Beco, é uma forma da juventude encontrar acesso à poesia, ao beat, ao grafite e às diversas expressões da cultura urbana sem a pressão da profissionalização imediata. A ambição comercial é secundária, o que pulsa é a descoberta de uma linguagem própria para traduzir a vivência e consolidar um sentimento de pertencimento no território da cidade.
“O Beco precisa ser algo diferente de um ‘rolê para chapar’; precisa ser um rolê para nutrir e inspirar.”
Essa distinção diz muito sobre a disputa em torno do lazer juvenil. Em cidades do interior, eventos ligados ao hip hop, ao funk, ao rap ou à música urbana costumam carregar uma vigilância maior. A arte periférica precisa provar o tempo todo que é cultura, não ameaça.

Luca diz que a primeira edição dependeu de uma rede colaborativa de amigos, entre filmmakers, fotógrafos, técnicos e pessoas que acreditaram mais na essência do evento do que em um retorno financeiro imediato.
Essa dinâmica atravessa os diversos relatos desta reportagem. Se o movimento nasce do afeto e do esforço coletivo, essa energia inicial possui fôlego limitado. A rede de colaboração é o que viabiliza o primeiro passo, contudo, é o fomento e o incentivo público que garantem que a engrenagem não pare de girar.
Política pública e continuidade
“As pessoas querem sair para saraus e batalhas, mas essas ocasiões não acontecem. Falta o município olhar para esse contexto”, afirma Luca.
Esse é o ponto em que Lobofest e Beco se encontram, em escalas diferentes, ambos mostram que existe público, artista e vontade.
Luca projeta um cenário de revitalização de praças, fluxos de investimento e mecanismos que permitam à produção local uma existência contínua. Em um território munido de recursos, turismo e infraestrutura, a arte periférica deve ser integrada ao corpo da cidade, deixando de ser tratada como um rastro que habita apenas a margem.

A Lei Paulo Gustavo e o ProAC mostram que o fomento existe, mas também revelam seus filtros. Quem tem repertório de escrita de projeto, documentação em dia, equipe de produção e capacidade de prestação de contas sai na frente. Quem está começando, muitas vezes, nem consegue entrar na disputa.
Márcio conhece esse jogo. “O ProAC é efetivo, mas a concorrência é alta.” Para o futuro, ele aponta a Lei Rouanet como possibilidade, principalmente para envolver a iniciativa privada por meio de renúncia fiscal. O caminho, porém, exige outra camada de profissionalização: captar recurso, negociar marcas, prestar contas e manter a identidade artística enquanto o festival cresce.

É nesse estágio que a escala revela sua ambiguidade. Os eventos mostram a potência da cena, mas também mostram quanto custa torná-la visível.
“Hoje está muito mais acessível produzir. O interior paulista sempre foi criativo, mas agora a gente vê mais porque é mais fácil circular”,
Márcio Bertasso, idealizador do Lobofest
Ainda assim, aparecer mais não significa se sustentar melhor. O próprio Márcio reconhece que o Lobofest se tornou um ativo de credibilidade. Os artistas e o público confiam na curadoria e na entrega. Essa confiança ajuda a vender ingressos, atrair patrocinadores e mobilizar a cidade, mas também aumenta a responsabilidade. Uma edição mal executada pode comprometer anos de construção.
O peso de parecer natural
No texto que escrevi depois de ir ao Lobofest, usei a palavra calmaria. Ela continua fazendo sentido, mas por outro caminho. A calmaria do público, sentado na grama enquanto o sol caía, só existia porque havia uma estrutura trabalhando para que o festival parecesse natural. Quanto mais bem organizado um evento, menos o público enxerga sua complexidade.
Pode ser que seja esse o sinal de maturidade de uma cena em escala: o esforço continua enorme, mas começa a produzir uma experiência. No Lobofest, a estrutura permite que o público viva o festival sem precisar enxergar o peso de cada negociação, edital, montagem, contratação e risco financeiro que tornou aquilo possível.

Isso não resolve a dependência de fomento, nem elimina a concentração de recursos ou garante que artistas locais terão estrutura durante o ano inteiro. Porém, oferece uma imagem pública de potência. Por um dia, Sorocaba deixa de parecer apenas uma cidade que recebe cultura de fora e passa a se apresentar como um território capaz de organizar sua própria vitrine.
No entanto, entre um festival e outro, aparece a pergunta sobre política cultural. O que acontece quando os eventos dependem de editais instáveis? O que se perde quando a cidade não cria continuidade? Quantos shows só existem porque alguém aceitou trabalhar com pouco retorno? Quantas cenas ficam invisíveis porque não conseguiram escrever um projeto, captar patrocínio ou convencer a prefeitura de que aquilo também era cultura?
O megafone aumenta o volume, mas alguém precisa ligar a energia.
A próxima pergunta nasce no outro lado dessa moeda. Se o festival mostra a cena em sua forma mais estruturada, o que aparece quando a estrutura some? Quando o palco é pequeno, o equipamento falha, o lazer é tratado como problema e a arte precisa nascer de uma precariedade mais crua?
É aí que a reportagem desce da arena para outros espaços.
Capítulo 5: O rascunho
No próximo capítulo, a música aparece sem o conforto da grande estrutura no rock direto da Marimbondo e na pista eletrônica do Barato.mp3




