(Foto: João Victor Borges / @bxrgesavage)
Crescer também pode virar um desafio.
Na cena independente, a banda passa meses tentando ser vista. Depois, quando alguma coisa finalmente acontece, precisa descobrir o que fazer com a atenção que recebeu.
A audiência se expande e os palcos se tornam maiores, logo, a dinâmica se transforma. Aquele reconhecimento regional ganha contornos de uma grande produção, e a proximidade afetiva que impulsionou os primeiros passos agora enfrenta um novo dilema: a necessidade de converter a vivência da cena em uma trajetória profissional consolidada.
A Chococorn and the Sugarcanes entra nessa história nesse ponto.

Meu primeiro contato com a banda veio antes do show. No sétimo semestre da faculdade, entrevistei Pipe, o vocalista e guitarrista, para uma matéria de rádio. Logo após esse contato, comecei a acompanhar mais de perto. O primeiro show que vi foi na LMC Tour, em Campinas, quando eles dividiram o palco com Link do Zap, Chard La Plaga, MiserySwin, DUPLA 02 e Loopcinema.
Naquela noite, observei eles passarem o som antes do público entrar e notei uma estrutura clara ao redor. Nada gigante a ponto de serem distantes da cena, mas uma organização visível com selo, equipe e estratégia. A banda ainda carrega a energia de amigos do interior, mas já opera em outro estágio.
O ‘emo caipira’ como origem
A Chococorn surgiu em 2021, em Santa Bárbara d’Oeste, formada por Alexandre Luz na bateria, Filipe ‘Pipe’ Bacchin e Pedro Guerreiro na guitarra e Pietro Sartori no baixo. Amigos, eles começaram tocando em uma festa de Halloween e decidiram seguir juntos depois disso.
Com o tempo, a banda encontrou no termo ‘emo caipira’ uma forma de nomear a própria origem sem esconder as influências de fora.
“Usar o ‘emo caipira’ foi muito uma parada do gênero que a gente se identificava bastante na época, que era um gênero gringo, o midwest emo. E a gente quis cunhar o termo ‘emo caipira’ para trazer mais para nossa realidade material e de vivência. A gente não queria viver sendo conhecido por fazer música que é exclusivamente estadunidense.”
A explicação continua até no detalhe da pronúncia, não só no conceito. “Tem uma parte de decisão estética, de não querer mascarar aspectos caipiras, então tipo a gente vai puxar o R mesmo e é isso aí.”
A essência do grupo surge desse esforço em não ocultar as próprias raízes. Ainda que as referências globais estejam presentes, não há um mimetismo vazio; a releitura ganha forma nos ponteados da viola e na experiência cotidiana de habitar uma cidade do interior, onde o global e o local convergem.

Pedro fala do paralelo com a música caipira: “Eu toco viola e para mim sempre foi uma influência. Tem muito ponteado que é muito bonito. Eu vejo a Chococorn como um rock ponteado. Acho que daí vem o ‘emo caipira’.”
O grupo narra a vivência fora da capital sem transformá-la em um artifício estético, o que justifica tamanha conexão com o público. Não há esforço de comercializar uma rusticidade ou de tratar o imaginário regional como um folclore caricato.
Da internet ao investimento
A pandemia aparece, na fala deles, como uma virada. “A gente viveu naquela época um momento da música que não importa de onde você era, porque só estava acontecendo na internet.”
A internet abriu caminhos, mas não apagou as diferenças de estrutura. A própria Chococorn reconhece isso quando compara o começo da banda com o momento atual.
“A gente surge em 2021 e ainda não tinha contrato com a +um. O primeiro disco foi gravado completamente por nós. A gente mixou junto com o nosso amigo Thiago, lá de Americana também.”
Depois veio a +um HITS, selo e produtora de Americana que passou a acompanhar a banda. “A gente só conseguiu se tornar algo maior porque a +um trouxe esse investimento”, dizem.
“A gente não conseguiria ter rodado o país inteiro se não fosse investimento deles, se não fosse atenção deles.”
A constatação desarticula o romantismo em torno da independência pura. Ainda que o talento e o senso de pertencimento sejam os pilares, o aporte de recursos altera a escala da operação. Existe uma diferença clara entre a produção individual e a existência de uma estrutura profissional articulando cada etapa da estratégia de circulação.
Ao mesmo tempo, a +um HITS não aparece como uma entidade distante. A própria banda faz questão de situar o selo dentro do interior.
“A +um traz o acesso, mas as pessoas que trabalham na +um são pessoas que também estão tentando algo novo. Então a +um também é uma iniciativa bem do interior.”

A observação importa porque impede uma leitura simplista. A ascensão da Chococorn não é a história de uma banda local capturada por uma máquina de mercado tradicional. Pelo contrário, é o encontro entre uma banda do interior e uma estrutura também do interior tentando profissionalizar a cena a partir de dentro.
Em 2025, a Chococorn percorreu o país com a turnê de Siamês, passando por cerca de 30 cidades, em 12 estados, com aproximadamente 40 apresentações. O circuito ajudou a transformar o ‘emo caipira’ em uma identidade reconhecível fora da região de origem.
A Chococorn ocupa esse intervalo: ainda é do interior e fala a partir dele, mas já não cabe completamente na escala regional. O show de lançamento do álbum em São Paulo é citado como sintoma.
“Por uma questão de sobrevivência, o show de lançamento do nosso álbum foi em São Paulo, que é onde a gente acha mais público.”
A capital como plataforma
Bia Vaccari conhece bem esse deslocamento. Criadora do Downstage, plataforma de jornalismo alternativo, e do Banda de Casinha, ela começou escrevendo sobre música depois de sair de um estágio em jornalismo.
“Eu não queria criar apenas mais um site, queria algo com propósito, que fizesse a diferença.” O foco no emo fez a cena nacional notar o projeto rapidamente. Em poucos dias, segundo ela, bandas brasileiras já enviavam material.

O Festival Banda de Casinha nasceu quase como acaso. Bia estava ouvindo muito American Football quando a banda anunciou show no Brasil. Decidiu fazer um ‘esquenta’ com bandas de amigos.
“Não era para ter segunda edição, mas o público pediu, a segunda edição esgotou em 20 dias e percebi que tinha algo especial nas mãos.”
Depois, o festival virou itinerante. E aí a questão do interior apareceu com força. “As bandas do interior queriam tocar em São Paulo e não tinham espaço. O Banda de Casinha virou esse lugar.”
A fala de Bia ajuda a entender a capital como plataforma. O problema não é tocar em São Paulo. O problema é precisar de São Paulo para ser validado.
“Em São Paulo, o Downstage acaba sendo maior porque é onde as coisas acontecem. Quem não é visto não é lembrado, e infelizmente isso ainda é muito forte.”
Bia Vaccari, fundadora do portal Downstage
Bia também percebe uma diferença de público entre interior e capital. “Em São Paulo, há vários rolês do mesmo gênero no mesmo dia e todos enchem. No interior, muitas vezes o nosso evento é a única programação da cidade.” Isso gera, segundo ela, um público mais amplo, menos nichado e proporcionalmente maior. A carência de eventos é o que faz com que todo mundo compareça.
A observação complica a ideia de que a capital é sempre mais forte. Os centros concentram oportunidades, mas também dispersam a atenção. O interior tem menos estrutura, mas, quando algo acontece, pode produzir um senso de acontecimento mais denso. A mesma banda que disputa espaço em uma agenda paulistana saturada pode virar o evento da semana em uma cidade média.

O ritmo do interior
Guioak, artista independente que pensa a música também a partir da linguagem pop e da sinestesia, lê o interior por um caminho parecido.
“No interior, sinto que as coisas acontecem em um ritmo mais saudável. Dá para abraçar mais a cena, todo mundo quer fazer acontecer para dar luz ao movimento local.”

Para ele, a cidade grande carrega um ritmo frenético, enquanto cenas menores permitem outro tipo de acolhimento. Mas essa vantagem afetiva não elimina as barreiras.
“A maior dificuldade na cena independente não é a falta de vontade, é o tempo. Isso exige uma organização e disciplina gigantescas.”
Guioak, artista independente
Na rotina do músico independente, é preciso equilibrar as sessões de gravação, as apresentações e a divulgação com o trabalho, os estudos, as negociações de agenda e o autocuidado, tudo isso sem interromper o processo criativo.
Guioak também toca em um ponto delicado: “O mercado é muito ligado ao ego, e isso acaba sendo uma barreira para artistas independentes furarem a bolha.” Ou seja, o modo como certas relações de prestígio, contato e aparência interferem no acesso e prejudicam a proliferação de novos artistas.
Produto, plataforma e bolha
Bruno Martins, CEO da Shake Music e pesquisador atento às mudanças do mercado musical, usa outra linguagem para falar do mesmo problema. Para ele, a lógica atual mudou com a força do TikTok. “Com o aplicativo, o seguidor não vale nada. O que vale é o conteúdo e a capacidade de gerar engajamento para a plataforma.”
“A lógica de uma banda nova e de uma startup é muito parecida. Ambas precisam começar e manter um projeto ou negócio utilizando exclusivamente recursos próprios e do apoio de amigos, família e pessoas que acreditam sem qualquer prova.”
Bruno Martins, CEO da Shake Music
Guioak oferece uma leitura menos empresarial e mais artística para essa mesma questão. “O pop é muito mais do que um gênero, é quase uma linguagem, uma forma de pensar a própria música.”
Pensar pop, nesse sentido, não significa diluir identidade. Pode significar tornar uma ideia comunicável, entender como uma emoção chega ao outro, como uma música se organiza para ser lembrada, cantada, compartilhada.
A Chococorn ocupa esse meio do caminho. Tem energia da cena, humor de internet, sotaque de interior, apoio de selo e um show que funciona ao vivo. O ‘emo caipira’ ajuda a nomear tudo isso, sendo um rótulo útil para a imprensa, para o público e para a própria banda. O cuidado é não deixar que ele fique maior que a música.
“A gente faz parte de uma cena, mas talvez ela não esteja junta por uma semelhança sonora, mas por uma semelhança de vivência e de vida.”
Chococorn and the Sugarcanes
Os meninos da Chococorn podem tocar em um evento de trap, plug ou rap experimental e ainda encontrar conexão. Não porque tudo soe igual, mas porque as letras, as idades, as inseguranças, os públicos e as formas de circulação se aproximam.
Na LMC Tour, isso ficava visível. A banda estava em uma noite que não era, em tese, seu território sonoro mais óbvio. Ainda assim, o público respondeu. “A galera pirando, né, cara? Foi muito legal isso.” A mistura funcionava porque a cena não estava organizada apenas por gênero, mas por um tipo de reconhecimento.
A pressão de crescer
Bia Vaccari fala desse trabalho de mediação com cuidado. Na Algohits, gravadora e hub de soluções para agentes independentes, ela diz que não busca nada específico nos artistas além de “sinceridade e vontade de fazer acontecer”, ao mesmo tempo que evita colocar expectativa demais.
“Expectativa, quando se é um artista independente, pode virar pressão. Eu quero que meus artistas se sintam livres para criar com sinceridade.”
Bia Vaccari, fundadora do portal Downstage
Bruno é direto ao falar do streaming: “O streaming salvou a indústria da música, mas salvou as grandes empresas também.” A frase encaixa no paradoxo dos artistas: lançar música nunca foi tão possível, mas transformar a reprodução em sustentabilidade continua difícil.
É nesse ponto que ele cita a Fan First, plataforma brasileira criada pela distribuidora Shake Music no modelo direct-to-fan, ou direto para o fã. A lógica é simples: em vez de depender apenas dos algoritmos das redes e dos centavos do streaming, o artista oferece conteúdos exclusivos, músicas inéditas, demos e materiais de bastidor para uma comunidade disposta a pagar diretamente por aquilo.

Para Bruno, essa diferença muda a conta. “Um fã no Fan First pode representar R$ 20 por música, enquanto no streaming ele geraria centavos. A conta do streaming é assustadora para quem está começando.” O problema, para ele, não está apenas no Spotify, mas no mercado e nos artistas que seguem o ‘efeito manada’ sem explorar formatos alternativos.
Esse debate não aparece de forma abstrata para uma banda como a Chococorn.
“A gente não trilhou caminhos de bandas que estão na capital trilharam, porque na capital você tem bastante oportunidade de gravação, de casa de show, de evento, de público. A gente estando no interior teve que trilhar caminhos diferentes, que nos fizeram pessoas diferentes.”
Chococorn and the Sugarcanes
Nesse cenário, o interior se manifesta como um território de formação, onde trajetórias singulares moldam artistas com identidades próprias. A escassez de suporte, a demanda por soluções autônomas e o diálogo com cenas restritas cria uma estética e uma interpretação do fazer artístico.
O palco como métrica
Ao mesmo tempo, crescer exige aprender códigos que não nasceram no interior. É preciso aparecer em veículos, alimentar plataformas, planejar turnê e responder a públicos maiores sem deixar que o mercado pareça falar mais alto que a música. A autenticidade continua sendo importante, mas também precisa encontrar caminhos para circular.
Guioak resume que, no fim, tudo volta ao palco: “Levar público para o show será sempre a métrica mais importante para medir o verdadeiro sucesso de uma carreira.” Seguidores e reproduções têm valor, mas o show exige tempo, algo muito mais raro hoje em dia.
Sob essa ótica, a Chococorn consolida sua essência na experiência do show. O grupo transita por diferentes municípios e estabelece um vínculo genuíno com a audiência, que se enxerga naqueles quatro amigos.
A pergunta que fica é o que acontece quando essa confirmação de público começa a pedir uma estrutura maior. Bia, Bruno e Guioak apontam caminhos diferentes para o mesmo impasse. Bia fala do cuidado com o artista e da pressão que nasce da expectativa. Bruno fala do produto, da monetização e do esgotamento da lógica do streaming. Guioak fala do tempo, do ritmo do interior e da necessidade de levar público para o show.
A Chococorn está no cruzamento dessas leituras. Uma banda com identidade forte, público em expansão, apoio de selo e desejo de chegar mais longe. O grupo atravessou Americana, chegou aos palcos de São Paulo, rodou o país e passou por shows fora do Brasil. Crescer, para eles, nesse momento, significa decidir o que permanece quando a escala muda.
O capítulo termina diante de uma pergunta maior: quando uma banda consegue transformar pertencimento em expectativa, quem sustenta o próximo salto?
A resposta passa pelos festivais.
Capítulo 4: O megafone
No próximo capítulo, o Lobofest e o Festival Beco aparecem como megafones da cena, reunindo público, fomento, território e ocupação da cidade


