Capítulo 2: O palco

A partir do Na Garagem, o capítulo acompanha Orsi, Carol Thunder, Palhaços da Cidade e Porcelana para entender como casas pequenas sustentam a cena ao vivo


(Foto: @entrepalcos.photo / Reprodução)

A estrada leva a banda até a cidade, o palco decide o que aquela chegada pode virar.

Foi isso que o Na Garagem mostrou quando aconteceu no Lola Bar, em Campinas. Cheguei cedo, como no show da LMC Tour, mas a energia era outra. A Lóbulo já tinha uma organização definida, com a segurança de quem sabia exatamente o tipo de noite que estava conduzindo. Aqui, havia uma vibração de estreia, era a primeira edição de um festival de bandas.

Logo na entrada, um letreiro grande dizia ‘não é um puteiro’. Primeiro, li como afronta. Pensei nas críticas que uma casa alternativa poderia receber de uma cidade que nem sempre sabe lidar bem com a própria vida noturna. Depois, a frase começou a parecer mais literal. Talvez houvesse mesmo gente chegando ali com outras intenções. Provavelmente a casa já teve que explicar o que era, quem frequentava e que tipo de noite acontecia lá dentro.

(Vídeo: Arthur Caires / Arquivo pessoal)

Quando entrei, os Palhaços da Cidade passavam o som: Gabriel Orsi na voz e guitarra, Athena Véspero no baixo, Ricardo Lopes na guitarra e Miguel Prado na bateria. Eles estavam acompanhados pelo pai de Orsi, que também entende de música e observava tudo com atenção. A cena tinha uma intimidade bonita de se observar.

Felps também estava por trás do Lola Bar, assim como no Tetriz Club, e reconheci alguns rostos da equipe. Essa repetição diz bastante sobre a cena. As mesmas pessoas reaparecem em noites diferentes, assumem funções diferentes e seguram pontas que o público quase nunca percebe. Um evento acaba, outro começa, e parte da engrenagem continua ali.

Uma estreia em montagem

Orsi é o frontman dos Palhaços da Cidade, estudante da Unicamp e um dos personagens que aparece na cena pela urgência de fazer. Carol Thunder, parceira na criação do Na Garagem, também vem da música, canta com sua banda Sutiã Rasgado e compartilha com Orsi uma lógica de produção parecida. Os dois criaram o festival como resposta a uma falta sentida na prática.

Antes do Na Garagem, Orsi já vinha produzindo eventos culturais desde 2023. O primeiro, o Festival Reviva, nasceu para ajudar uma amiga com câncer, que precisava arrecadar fundos para uma cirurgia. Depois, com o começo dos Palhaços da Cidade, essa experiência passou a se ligar mais diretamente à cena musical em que ele também estava tentando abrir espaço. “Não tinha muita oportunidade na cena. A gente precisa começar de algum lugar, então eu decidi criar os nossos eventos para a gente tocar”, contou. 

“Começou assim, e depois eu vi que tinha uma missão muito maior, uma missão cultural de fazer a coisa acontecer, de fazer as bandas terem espaço da mesma maneira que a gente acabou criando o nosso espaço.”

Gabriel Orsi

Algum tempo depois de eu chegar, Orsi e Carol conversavam com a dona da casa sobre detalhes da noite. A questão era onde ficaria a mesa da mini feira de artistas visuais. Depois de alguma discussão, decidiram colocar tudo na calçada, em frente ao Lola. Era um detalhe simples, mas dizia bastante sobre a proposta do Na Garagem, que queria ser um pequeno território de circulação artística.

Do lado de fora, os artistas foram se ajeitando como dava. Tinham telas, adesivos, prints, pequenas obras e uma disposição meio tímida de quem ainda está descobrindo como apresentar o próprio trabalho fora da internet. Conversei um pouco com alguns deles, a maioria muito jovem, alguns ainda mais novos que o público da LMC Tour. Falavam da participação no evento como uma chance de testar públicos.

Produzir também é administrar atrito

A parceria entre Orsi e Carol nasceu na Unicamp. Ele já conhecia a Sutiã Rasgado, mas a aproximação aconteceu mesmo quando os dois se encontraram na faculdade.

“A gente começou a trocar uma ideia. Começou a bater muita coisa. Eu e a Carol somos muito parecidos, a gente tem uma visão muito parecida, uma lógica muito parecida. Então, o santo bateu em cheio.”

Orsi lembra dos dois sentados em um banco da praça do Instituto de Artes, pensando no nome, formato e possibilidades.

“Eu tenho muito sangue nos olhos, eu sou aquele cara que ‘vamos fazer, vamos fazer, já fiz, pum’. Ela também, ela é até mais do que eu, bisonho.”

No dia do evento, esse sangue nos olhos aparecia em uma organização ainda descobrindo os próprios limites, entre conversas sobre entrada de bebida, comportamento no show, cuidado com a casa e energia do público.

O pessoal gostava de mosh pit, algumas bandas pareciam mais acostumadas ao caos do que outras, e a dona da casa precisava garantir que a noite não ultrapassasse certos limites. Nada disso desmontou o rolê, mas mostrava uma coisa que a parte bonita do festival costuma esconder — produzir também é administrar o atrito.

(Vídeo: Arthur Caires / Arquivo pessoal)

Para Orsi, “o maior desafio de fazer o festival acontecer, na verdade, foi tudo.” Depois ele detalha os contatos com apoiadores, logística, equipamentos e a confiança. O nome do festival ainda era novo, fazer as pessoas escutarem a proposta já era parte do trabalho.

No evento em si, a escala virou outro problema.

“Eram duas pessoas cuidando de um evento que já estava beirando cento e tantas pessoas, sold out, e podia dar um descontrole. Não deu, a gente conseguiu segurar a barra, mas isso foi um puta desafio.”

Vender todos os ingressos prova que existe público, dá legitimidade e faz a cena olhar, mas também aumenta o risco — casa cheia muda o peso de qualquer detalhe. Tudo o que parecia pequeno no planejamento cresce junto com o número de pessoas.

O Lola Bar foi uma peça importante para que a primeira edição saísse do papel. Orsi conta que pensou no espaço por meses. “O espaço do Lola foi fundamental. Eu fiquei planejando o lugar por mais de 4 meses.” Ele já conhecia o local desde a época em que se chamava Nárnia, mas ainda não tinha entrado. Quando descobriu que o espaço continuava ativo como Lola, viu uma possibilidade. Os Palhaços tocaram lá em janeiro de 2026 e o lugar ganhou outro sentido para ele.

“O Lola é um espaço que abre as portas para as bandas e está sendo o grande point do rolê underground hoje em dia em Campinas. Não só para o pessoal de Campinas, para o pessoal de fora também.”

Essa fala encosta diretamente no capítulo anterior. A estrada leva as bandas até a cidade, mas alguém precisa abrir uma porta quando elas chegam. Uma casa como o Lola organiza uma parte da geografia da cena. Vira referência e ponto de reencontro, um lugar onde uma banda nova pode testar seu som.

A casa como pilar de existência da cena

André, criador do BolaShow, olha para esse problema a partir de outro lugar. Antes do perfil de divulgação no Instagram, ele foi baterista durante quinze anos. Depois da pandemia, começou a frequentar muitos shows e a documentar as experiências como espectador comum. O projeto cresceu, virou calendário de apresentações, curadoria, entrevistas e uma espécie de guia informal para quem quer saber o que acontece no interior paulista.

Quando fala de casas de show, André vai direto ao ponto: “não há espaços suficientes e, dentre os existentes, muitos não são adequados.” Ele faz questão de proteger a análise de uma leitura injusta.

“As dificuldades são inúmeras, o retorno é mínimo ou inexistente e muitos atuam por paixão à cena.”

André, BolaShow

A falta de espaços não se resolve apenas cobrando mais coragem dos donos de casas ou mais organização dos produtores. André descreve um cenário mais material.

“Há muitos bares que abrem espaço para a cena, mas também são espaços improvisados para show, pois as bandas tocam em algum canto do estabelecimento e não há um quarto pra guardar os instrumentos, não há palco, o som geralmente é alugado ou emprestado pela própria banda.”

Quem frequenta shows independentes reconhece essa imagem: o palco é um canto, o camarim é onde couber, a banda guarda instrumentos atrás de mesa e passa cabo por onde dá. Muitas vezes funciona, mas o problema começa quando a adaptação vira regra permanente.

Nem toda cidade com artista tem palco

A estrutura e organização do Na Garagem seguraram a noite. A energia estava alta, a casa respondeu e os atritos pontuais ficaram menores que o resultado. A performance da banda Porcelana ajudou a perceber o tipo de juventude que o festival queria colocar em circulação.

O grupo é formado por Eric no vocal, Akirao e Tolby nas guitarras, Evie no baixo, Gallum na bateria e Raul no saxofone. Eles chegaram com uma energia muito próxima da história da própria banda: amigos que começaram tocando juntos e levaram para o palco essa mistura de intimidade, improviso e vontade de fazer acontecer.

A história começou na escola, quando Gallum ganhou da avó uma mini bateria eletrônica porque queria aprender bateria. Evie já tocava baixo e Raul começava a aprender sax. Nos horários vagos, eles conversavam com professores e usavam o auditório para ensaiar músicas de que gostavam, até que um professor de sociologia sugeriu que tocassem num evento de Consciência Negra. O projeto, que ainda tinha outro nome, nasceu nesse espaço entre aula e amizade.

Depois vieram Tolby, Eric e Akirao. Eric entrou mesmo sem se enxergar como vocalista. “Eu recusei umas três vezes. Eu falei: ‘Nunca cantei na minha vida, eu não sei cantar’. Aí eu acabei aceitando”.

A maior parte da Porcelana vem de Hortolândia. Eric descreve a cidade com uma imagem simples: “Hortolândia é uma cidade até que grande, mas tem uma energia muito pequena. Todo mundo se conhece. Não tinha alternativa na escola, não tinha alternativa por aí.”

Gallum é ainda mais direto: “A maior dificuldade que se tem de tocar em cidades do interior é a escassez de espaço para isso. Hortolândia tem só um bar de rock e lá só toca cover. Então, não tem esse espaço.” Segundo ele, há bandas e projetos na cidade, mas a cena precisa sair para outros lugares. Campinas, Americana e outras cidades maiores acabam recebendo o que Hortolândia não consegue sustentar.

Nem toda cidade com artista tem palco. Às vezes, a criação nasce em um lugar e precisa buscar público em outro antes mesmo de amadurecer em casa. O interior paulista não funciona como bloco único. Cada cidade oferece uma combinação própria de espaços, públicos, distâncias e limites.

André observa isso no BolaShow. Para ele, a identidade de cada cena passa diretamente pelo que a cidade tem disponível.

“Vejo que há uma ligação entre o local que tem disponível para tocar e o som que a banda que vai nascer naquela cidade vai fazer.”

André, Bola Show

O espaço também produz estética. Uma cidade com palco para bandas de nicho estimula um tipo de som. Uma cidade onde só há cover empurra a produção autoral para fora, diferente de municípios que possuem Sesc, bares, coletivos e casas alternativas que criam outras possibilidades de formação.

Margens dentro da margem

Orsi sente essa disputa em Campinas. Para ele, a cena da cidade e da região é rica, especialmente no thrash metal e no hardcore. A riqueza, porém, nem sempre se distribui.

“Se você não faz parte de uma cena de thrash metal e hardcore, ferrou. Porque aí já é interior. Se a gente não faz parte das poucas bandas que tem ali, você vira o patinho feio da história.”

Mesmo na cena independente alguns gêneros circulam melhor, alguns contatos pesam mais e algumas bandas disparam mais rápido.

“Eu sinto muita falta de algo realmente democrático. Porque tem alguns eventos, alguns festivais que não são democráticos, dá para ver que é base de contato.”

Quando ele fala de classe, o diagnóstico ganha outra camada.

“Eu sinto também que Campinas é uma cidade muito elitista. Então, é normal ver bandas que são de pessoas visivelmente ricas passar por cima de bandas que estão aí fazendo trampo há mais de dois anos, fazendo show, esperando oportunidade.”

Contato e dinheiro também fazem curadoria. Uma banda com mais recurso chega com fotos melhores, gravação mais limpa, equipe maior e visual mais pronto. Outra, com mais estrada e menos capital, segue esperando a oportunidade certa.

“Tudo gira em volta de dinheiro e de status. É complicado. É uma coisa que a gente tem que aceitar, faz parte, mas é uma coisa que me frustra um pouco.”

Essa frustração fica mais concreta quando Orsi fala dos Palhaços. A banda já foi chamada para festivais grandes sem receber cachê, como se o palco, por si só, bastasse como pagamento.

“E aí, tipo, fui descobrir esses dias que tem cachê, tá ligado?”

A ironia da fala revela uma prática comum na cena, em que bandas novas, jovens ou independentes são convidadas a trabalhar em troca de visibilidade. Orsi não compra essa lógica: 

“Ué, mas caralho, eu tô trampando, eu tô literalmente trabalhando no seu evento, você não vai me pagar?”

Gabriel Orsi

O palco, nesse ponto, além de ser o veículo da música, passa a ser trabalho para quem toca, ensaia, divulga, vende ingresso e entrega uma parte do evento. A colaboração move a cena, mas quando a colaboração se torna obrigação para alguns e lucro para outros, a conta muda de nome.

A juventude em circulação

A Porcelana parece estar em uma etapa anterior dessa disputa, ainda tomada pelo espanto de ver um projeto de escola encontrar público. Evie diz que a banda não imaginava chegar onde chegou, tocando para amigos e para uma galera que vai ouvir o som deles. “É uma coisa que para a gente é muito surreal.”

Quando fala dos planos, Gallum diz que eles querem rodar, conhecer mais gente e gravar músicas. Evie amplia esse desejo e expressa que a banda quer servir de referência para outros projetos que estão começando, mostrar que dá para fazer e transformar esse sentimento em música.

“A gente chama o Porcelana de emo justamente pela emoção que a gente bota em todas as nossas letras. É a gente despejando os nossos sentimentos, as nossas vivências, tudo o que a gente já passou nas nossas músicas e transformando isso em algo legal.”

Gallum, Porcelana

No contexto do Na Garagem, a escolha da Porcelana fazia sentido. Orsi e Carol queriam uma banda que estivesse começando. A curadoria tentava aproximar grupos diferentes por uma energia comum.

“A gente não quer se prender a gênero. A gente quer fazer um lineup divertido que todo mundo curta e que as tribos, mesmo que sejam diferentes, se respeitem e comecem a curtir umas às outras.”

O registro também constrói a noite

Para uma primeira edição, o registro também fazia parte da construção do evento, sem isso o Na Garagem ficaria restrito à lembrança de quem esteve presente. Com as fotos e vídeos, a noite ganha uma segunda circulação, ajuda a alimentar próximas edições e convence quem não foi.

André entende essa função mediadora. O BolaShow nasceu da documentação de shows pelo olhar de quem estava no público e, com o tempo, virou também uma ferramenta de divulgação. Hoje, ele tem priorizado bandas pequenas e independentes.

“Tenho sentido que o BolaShow pode contribuir com a renovação de artistas e bandas, por isso decidi dar essa prioridade.”

(Foto: https://bolashow.net/)

Para ele, o público continua sendo um gargalo central. “Eu quero enterrar de vez o papo de que não tem banda nova e que no interior paulista não tem show”, afirma.

André diz que já pensou em parar de divulgar shows na capital porque o interior tem dado muito trabalho, de tanto evento que aparece. O problema não está na ausência de bandas, mas na dificuldade de fazer essas bandas chegarem ao público que poderia gostar delas.

Muita gente ainda prefere o cover, o repertório conhecido e a segurança do que já foi validado. Essa preferência sustenta casas voltadas para bandas estabelecidas ou tributos, porque é isso que dá público e dinheiro.

A paixão entra nesse ponto como motor e armadilha.

“Conheço bem mais de um agente cultural desse meio que já desabafou comigo e pergunta o motivo de continuar fazendo, mas no outro dia tá lá organizando mais cinco eventos. A paixão ninguém explica.”

André, Bola Show

Depois da primeira noite

Naquela primeira edição do Na Garagem, a paixão ainda estava em combustão. Orsi e Carol queriam fazer acontecer, e fizeram. A casa encheu, as bandas tocaram, a feira ocupou a calçada e o público respondeu.

“A gente planejou muito, mas nunca é demais planejar.” O próximo, segundo Orsi, precisa ser maior, com nomes tão incríveis quanto. “E cada vez mais a gente chegando com os dois pés na porta fazendo acontecer mesmo.”

O palco, neste capítulo, aparece como construção. O Na Garagem funcionou porque transformou uma falta em espaço concreto. Orsi e Carol organizaram uma resposta para uma demanda que já estava ali.

A Porcelana encontrou um palco fora de uma cidade que quase não oferece lugar para música autoral. O Lola Bar reafirmou sua posição como ponto do underground campineiro. O público, em sua maioria jovem, ocupou a casa como um abrigo temporário.

O palco revela o que a estrada apenas anuncia. A cena independente precisa desses espaços como pontos de sustentação. Eles não eliminam a precariedade, mas permitem que algo aconteça enquanto as estruturas maiores não chegam. Às vezes, uma cidade só percebe o que é capaz de produzir quando alguém insiste em montar a primeira noite.

Sem palco, a música passa. Com palco, ela cria memória, forma público e dá às bandas a chance de entender o próprio tamanho diante de uma sala cheia.

A próxima pergunta nasce dessa sala cheia.


Capítulo 3: A ascensão

No próximo capítulo, a sala cheia vira expectativa de mercado e a Chococorn and the Sugarcanes aparece nesse ponto: entre o calor da cena, a identidade do ‘emo caipira’ e a tentativa de furar uma bolha que o interior, sozinho, nem sempre consegue romper

(Foto: João Victor Borges / @bxrgesavage)

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